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sexta-feira, 12 de junho de 2009

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"ERRANTE"

Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo,e tonto vai andando
A perde-se nas brumas do caminho.

Meu coração o mistico profeta
O paladino audaz da desventura,
que sonha ser um santo,e um poeta,
Vai procurar o paço da ventura.

Meu coração não chega la decerto
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem a memoria desse sitio incerto
Eu tecerei uns sonhos irreais

Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais.

Florbela Espanca.


FELIZ DIA DO AMOR!!!

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

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"CEGUEIRA BENDITA"


Ando perdida nestes sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tatear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!

Não vejo nada, tudo é morto e vago...
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
´Stendendo as asas brancas cor do sonho...

Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo
E não ver nada nesse mar sem fundo,
Poetas meus irmãos, que triste sorte!...

E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados,
A sofrer pelos outros té à morte!

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

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"SAUDADES"


Saudades! Sim… talvez… e porque não?…

Se o nosso sonho foi tão alto e forte

Que bem pensara vê-lo até à morte

Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?… Ah! como é vão!

Que tudo isso, Amor, nos não importe.

Se ele deixou beleza que conforte

Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,

Para mais doidamente me lembrar,

Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:

Quanto menos quisesse recordar

Mais a saudade andasse presa a mim!


(Florbela Espanca )

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

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"HORAS RUBRAS"


Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...
Ouço as olaias rindo desgrenhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas...
Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...
Sou chama e neve branca misteriosa...
E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras


Florbela Espanca

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

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"NOITE DA SAUDADE"


A Noite vem poisando devagar

Sobre a Terra, que inunda de amargura...

E nem sequer a benção do luar

A quis tornar divinamente pura...


Ninguém vem atrás dela a acompanhar

A sua dor que é cheia de tortura...

E eu oiço a Noite imensa soluçar!

E eu oiço soluçar a Noite escura!


Porque és assim tão escura, assim tão triste?!

É que, talvez, ó Noite, em ti existe

Uma Saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem...


Talvez de ti, ó Noite!...

Ou de ninguém!...

Que eu nunca sei quem sou,

nem o que tenho!!


Florbela Espanca.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

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"A UM LIVRO"


No silêncio de cinzas do meu Ser

Agita-se uma sombra de cipreste,

Sombra roubada ao livro que ando a ler,

A esse livro de mágoas que me deste.

Estranho livro aquele que escreveste,

Artista da saudade do sofrer!

Estranho livro aquele em que puseste

Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

Leio-o, e folheio, assim, toda a minh’alma!

O livro que me deste é meu, e salma

As orações que choro e rio e canto!...

Poeta igual a mim, ai quem me dera

Dizer o que tu dizes!...

Quem soubera

Velar a minha

Dor desse teu manto!...


Florbela Espanca ( 1894 - 1930 )

domingo, 7 de setembro de 2008

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EM VÃO

Passo triste na vida e triste sou,
Um pobre a quem jamais quiseram bem!
Um caminhante exausto que passou,
Que não diz onde vai nem donde vem.
Ah! Sem piedade, a rir, tanto desdém
A flor da minha boca desdenhou!
Solitário convento onde ninguém
A silenciosa cela procurou!
E eu quero bem a tudo, a toda a gente...
Ando a amar assim, perdidamente,
A acalentar o mundo nos meus braços!
E tem passado, em vão, a mocidade
Sem que no meu caminho uma saudade
Abra em flor a sombra dos meus passos!
Florbela Espanca
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